Jucelino, irmão de meu pai, por conseguinte meu tio, sempre se ufanava de nunca ter ficado doente (com certa gravidade), sempre tratou as maleitas com chá de alho, um bom copo de vinho e outras variantes da farmacopeia lusa, acontece que de um tempo pra cá vem andando meio murcho.

Creio que em algumas coisas puxei ao tio, sempre tive curiosidade pelo místico pelo alternativo, pelas possibilidades que as medicinas naturais ofereciam. Convenhamos que o panorama oferecido pela medicina ortodoxa não é dos mais inspiradores, fantasiando um pouco os hospitais e clínicas, eles me parecem versões atuais do gabinete do Dr. Jekyll sempre pronto para se transformar em Sr. Hide. Gosto de ir na contramão, acho que guardei um certo gosto adolescente pela transgressão.

Este texto não tem como objetivo provocar ou melindrar alguém. Tenho como princípio não falar da vida privada daqueles a que me oponho, ou critico o trabalho. Quem de alguma forma tem uma vida pública, seja ensinando, publicando trabalhos, ministrando palestras, assinando posts, deve estar pronto para receber críticas. E é sinal de grandeza aceita-las, e até corrigir sua trajetória, quando estas são bem fundamentadas. Nascemos no deserto da razão e caminhamos por 70 ou 80 anos pela árdua estrada do aprendizado. Arrisco-me cada dia ao tentar guiar aqueles que me procuram para um caminho longe dos discursos fátuos.

O que conto a seguir foi inspirado em meu périplo pelo mundo alternativo buscando um diagnóstico e terapia capazes de reativarem o velho brilho no olhar do tio. No entanto já habitava em mim uma certa desconfiança a respeito desse universo. Nos últimos vinte anos vi surgirem os mais variados modismos, cujos adeptos, praticantes, defendiam com um empenho levado ao paroxismo, suas convicções sobre o mesmo. Lembramos assim da moda dos cristais, das velas, dos aromas, dos anjos, dos gnomos, das pedras quentes, das tradições ciganas, da Wicca, da Cabala, dos bambus, dos florais etc.

Em virtude da desagradável ocorrência, que mais cedo ou tarde acontece a muitos de nós, o evento da doença na família, me vi lançado em dois mundos, primeiro o da medicina oficial, com suas várias instâncias, as dos planos de saúde milionários até ao baixo clero da medicina praticada em inapropriados postos de saúde desprovidos de tudo. Exercida por médicos desatentos, verdadeiros despachantes dos laboratórios. Claro que existem bons profissionais, mas para nosso sofrimento pululam os medíocres.

No mundo paralelo, o das terapias alternativas, vi surpreso análises de chakras com aurameter e tentativas de “realinhamento” usando as mais variadas manobras, resultando em alterações energéticas momentâneas, não duradoras.

O coitado do Bach deve estar se retorcendo no túmulo, por conta dos novos florais de todas as lavras, dos golfinhos, das fadas, de Saint Germain... Saint Germain! Vi receitas de florais com mais seis essências, com até doze – oh!

Tio Jucelino piorou.

RUMO À PATAFÍSICA

A invasão quântica

Para o que não existe uma sólida base de referência a explicação virou, quântica. A quântica transcende a lógica e o racional. Aplica-se a tudo.

Não confundir.

Não estou levantando uma bandeira contra a física quântica. Esboço uma negação pela apropriação indébita dos princípios da ciência e sua colagem em atividades em nada relacionadas com a teoria, numa espécie de copiar e colar, com o intuito de travestir o antigo conteúdo com uma nova roupagem.

A psicanálise e toda a série de técnicas que dela evoluíram, não podem ser relacionadas com algo quântico. O quântico neste sentido, pseudo racionaliza processos mentais próprios do aparelho psíquico humano. Não há onda, não há partícula, apenas conexões neuronais buscando memórias nos recônditos da mente, indo e vindo no tempo, inter-relacionando os eventos.

Hoje em dia todos os fenômenos não explicados pela razão, pela lógica são justificados pela boutade da física quântica.

É um ato reducionista tentar enquadrar a mente no escopo da física.

Tentar modular a verdade a suas mentiras é o caminho usual dos políticos, dos pastores e dos estelionatários. Não precisamos disso na ciência nem nas relações humanistas.

A física do universo subatômico não pode ser utilizada nem por analogia na tentativa de explicar fenômenos os quais ainda não entendemos em toda a sua extensão. Nesse sentido estrito não há caos, apenas há uma ordem sem referências.

À guisa de teoria.

A Teoria dos Campos Mórficos). A que eu chamo Teoria dos indícios (dos eventos sincrônicos). A bem dizer a teoria dos Campos Mórficos é uma ilação, no entanto justificaria algumas questões. Teoricamente. E por favor não me venham com Amit Goswami com seu hinduísmo cienticista, situado nos antípodas da defesa do ateísmo de Richard Dawkins.

A crendice antigamente se paramentava com xale, múltiplas saias pretas um rosário e brandia um crucifixo contra a suposta iniquidade. Hoje veste o uniforme da bata branca e justifica o inexplicável com a parca luz de alguns quantas (quanta: porção discreta de energia). Vou até cantar uma antiga ladainha:

Se um quanta explica muita coisa,
Dois quantas explicam,
Explicam,
Explicam muito mais.

É reconfortante se apoiar numa teoria, racionaliza e justifica uma crença. É o oposto de não acreditar em nada.

A teoria dos Campos Mórficos advoga o pressuposto que a natureza ou a Memória Universal aprende com a experiência.

Fazemos determinada coisa, a natureza, a memória universal aprende e da próxima vez que alguém for repetir o evento, mesmo desconhecendo sua antecedência, estaria se reportando a esta memória e conseguindo com certa facilidade chegar a bom termo.

Acontece que na própria teoria está inclusa sua negação. Vejamos:

Você vai fazer algo pela primeira vez, tocar um violão. Você tenta uma vez aquela sequência de notas de certa música. Foi mal. Você repete uma vez, duas vezes, três vezes, dez vezes. Finalmente na decima primeira vez você consegue acertar aquele pequeno trecho.

O que ficou registrado na Memória Universal? – 10 a 1 para o erro. Quando o próximo candidato a músico for tocar irá falhar dez vezes e acertar na décima primeira. O próximo errará de dez a vinte vezes até finalmente acertar, visto que a memória do erro é mais substancial que a do acerto. Até que haja um número de músicos cujo total de acertos pela repetição, seja maior que o total de erros. Poderia fazer uma equação para provar a tese. Espero que ninguém tenha tentado.

A Teoria dos Campos Mórficos Aplicada justifica a dificuldade dos começos e a plenitude das realizações. É uma teoria egoísta.

No nosso caso no campo da radiestesia o advento quântico é trágico, temos a avalanche das Mesas Radiônicas, quânticas, quantiônicas, só o Manuel Mattos produziu mais de 20! Os diagnósticos produzidos com tais instrumentos têm uma veia de Ubu Rei, no mundo da Patafísica. Os tratamentos para as doenças que o corpo levou anos para construir, são executados em escassos segundos!! Tudo isso mediado pelas respostas de um inocente e infeliz pêndulo, nas mãos de um mediador equivocado.

O tio Jucelino foi-se. Faleceu. Beirando o mau gosto arriscaria o trocadilho: quanta perda.

Radiografia da mesa radiônica quântica com radiestesia clássica:

Tem polaridade negativa a cima do decágono;
O dispositivo apresenta 5.500 Unidades Bovis;
Tem como emergências devidas à forma = Ver. mag.e V+ e;

Acima do cristal emite magia e necromancia.

Por ser pequeno, fino e sobre fundo interferente o decágono está fora de suas características de funcionalidade.

Toda a detecção com o dispositivo fica por conta do psiquismo do operador.

A profusão de cores e formas demasiado juntas impede o funcionamento efetivo (pela forma) do dispositivo.

Como dispositivo de análise e tratamento seu potencial é zero.

Suas funcionalidades não são expressas.

Ainda – como a resposta psíquica está relacionada com a mensagem visual enviada para o inconsciente a resposta que dele advém é errónea.

Em virtude do que foi detectado sobre o dispositivo percebemos que os praticantes da mesa trabalham com o imaginário.

É um dispositivo estético e simbólico, classificado por sua criadora Régia Prado de dispositivo psiônico, o que também é em sua origem uma outra coisa (baseada na teoria unitária de McDonagh que advoga o princípio que as doenças são o produto de desequilíbrios proteicos no organismo e na pesquisa e escolha de medicação mediante o uso do gráfico radiestésico de Wood).

Um destes dias desocupado fuçando na rede trombei com uma certa pessoa, falando sobre a mesa. Facilitadora licenciada que se diz originária de Órion (podia ter ficado por lá). Depois de ver aquilo só me fica uma sensação: O povo gosta de ser enganado! – A tempo, é muita asneira, muito misticês bisonho. Nos anos 1960, 1970 o mundo se afastou da igreja sentindo-se abandonados por uma instituição que não acompanhava mais suas necessidades (arremedo de explicação sintética). Porém por pulsão interna atávica continuam a busca de Deus e acabam caindo nessas arapucas místicas. Abrenúncio!

Não quero ir embora sem falar da nova moda: OS ORGONITES. Que tudo fazem! Os Orgonites têm pressupostamente a capacidade de reequilibrar ambientes promovendo sua limpeza, qualquer que seja a sujeira. Promover a cura, o reequilíbrio energético e algunas cositas más.

O Orgônio foi descoberto e sua conceituação elaborada pelo médico austríaco Wilhelm Reich. A aplicação prática é baseada no uso de um acumulador constituído de camadas de material inorgânico e orgânico, que transferem para o INTERIOR a energia externa captada.

Em 1991, Karl Hans Welz inventou e construiu o primeiro gerador de orgônio, elétrico/eletrônico baseado em temática radiônica. Orgone Generator e Orgonite são marcas registradas de seu gerador de energia chi ou força da vida.

Os Orgonites nacionais são feitos de uma amálgama de cacos de cristais, limalha de ferro e resina de poliéster (com variantes) e funcionariam em oposto evidente do orgônio, ou seja, de dentro para fora.

Se fosse verdade seriam americanos e patenteados, typo Tylenol, Coca Cola, Apple etc.

Em algum tempo estarão dormindo o sono eterno no fundo de alguma gaveta na companhia dos anjos cabalísticos, dos gnomos, das fadas e tutti quanti.

Vivemos num universo povoado de clones do conselheiro Acácio, abrenúncio, propalando as teses mais cabeludas, abrenúncio. De vendedores contumazes de qualquer quinquilharia, abrenúncio.

Amigos, façamos um esforço para manter a radiestesia longe de tais imbróglios, dos equívocos, dos lapsos da razão. Das variantes onomásticas adjetivas capazes de seduzir e arregimentar incautos, geradas por portadores de desvios de personalidade, que os demais com crítica bonachona classificam de “muito louco” e “viaja na maionese”.

Não esquecer que Radiestesia não é Sensibilidade às Radiações, que é o produto do diálogo interno que traz conteúdo do inconsciente para o consciente, segundo a aplicação de cinco regras. Que só muita prática e comedimento nas fantasias diferenciam o bom radiestesista do “achista”. Todos os ensinamentos estão espalhados por milhões de livros, a dificuldade é saber quais são os bons. Os meus o são!




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