Podemos considerar este artigo como uma “Nova Era”: é possível que após lê-lo, velhas cenas se desfaçam e outras surjam diante de você. O potencial inesgotável da vida se abre num horizonte renovado, e devemos perceber que o tempo passa, e que é melhor aproveitar as oportunidades enquanto elas estão à nossa frente, ao nosso alcance.


Lembre-se: este momento é único, e cada potencial desperdiçado tem um preço a ser pago no futuro. Carpe diem*, diz o ditado clássico: “Aproveita o dia de hoje”. E não se trata de um convite ao prazer de curto prazo. É um lembrete de que mais adiante prestaremos contas, à nossa alma imortal, sobre cada instante de tempo perdido.


Surgem, então, algumas perguntas incômodas. O que fizemos de mais importante em nossa vida até hoje? Quais são os erros que não queremos cometer de novo? O que esperamos do futuro? Nossas metas pessoais são claras e realistas? O que estamos dispostos a fazer, de fato, para alcançá-las?


Cremos que este artigo tem algumas validades psicológicas, outras tantas espirituais, e também mostra praticidade no bem-viver. Porém, o que ele tem de mais abrangente e de importante, é que todos podem reavaliar as suas vidas, desde o seu início até à conclusão.
É claro que poderíamos especular de vários modos sobre tudo aquilo que o futuro nos reserva. Mas o mais sábio é assumir a direção do processo de perguntar: “Que tipo de futuro desejo criar para mim mesmo?”


Com uma caneta na mão e um pedaço de papel, fazemos planos. Nesse papel podemos colocar algumas ações capazes de aumentar radicalmente a qualidade da nossa vida. Entre elas:

Prestar mais atenção a cada instante de sua vida.
Abandonar um hábito negativo.
Cuidar melhor da saúde.
Dedicar mais tempo à meditação.
Economizar mais.
Preservar a energia vital.
Melhorar os nossos relacionamentos pessoais.
Dar menos atenção a certas atividades que parecem urgentes, mas não são importantes, e dar mais atenção a atividades que são importantes para nós, embora não pareçam urgentes.

O passo seguinte é evitar que essas promessas caiam na fossa comum do esquecimento. Será útil avaliar cuidadosamente as nossas forças. Talvez possamos remar contra a correnteza, vencendo a preguiça, a inércia, o desânimo e outros desafios. Mas há o perigo de que sigamos o caminho mais fácil, abandonando as nobres decisões de um momento inspirado e sendo arrastados, cachoeira abaixo, pela força da rotina.


Em vista do que foi dito, perguntamos: O que fazer, então, para que as nossas promessas se transformem em realidade? O primeiro passo é reconhecer que o propósito da vida é produzir auto-aperfeiçoamento, criatividade e paz interior. O segundo passo é escolher metas bem definidas que só dependam de cada um. Não decida, por exemplo, que você ganhará na loteria. Isso seria apenas um desejo de colher aquilo que você não plantou. Não tome a decisão de que as outras pessoas serão simpáticas com você, mas resolva que, da sua parte, será amável com elas. Não decida que seu chefe deve lhe dar um aumento salarial, mas tome a decisão de trabalhar com mais afinco e aproveitar melhor as oportunidades profissionais.


Na infância espiritual, ou quando somos psicologicamente infantis, temos uma forte dependência de um “pai salvador” e esperamos que Deus ou uma figura de autoridade façam tudo por nós. À medida que adotamos uma atitude adulta, aceitamos nossa independência. Então nossa religiosidade já não se apóia na crença ou na obediência passiva, mas, sim, na compreensão da unidade e num sentimento de responsabilidade solidária. Para o budismo da terra pura, por exemplo – um dos mais populares do Japão – Buda Amida não é um mestre individual. É a luz eterna e a vida infinita. Em uma meditação tradicional dessa seita, cada praticante se considera parte de uma corrente de amor universal que integra o cosmo:


“Eu sou o elo da Cadeia de Ouro do amor de Buda Amida, que se estende pelo mundo. Devo conservar o meu elo brilhante e forte. Tentarei ter pensamentos belos e puros, dizer palavras belas e puras, e praticar ações belas e puras, porque sei que a minha felicidade ou infelicidade, assim como a felicidade dos outros seres, depende de tudo quanto agora faço. Possa todo o elo da Cadeia de Ouro do amor de Buda Amida tornar-se brilhante e forte. E possamos todos nós alcançar a paz perfeita”.


Nesta oração, o meditador reconhece que sua felicidade – e, em parte, a felicidade dos outros – depende de tudo quanto ele faz no momento presente. A conclusão é a lei do carma kriyamana: devemos semear agora aquilo que esperamos colher um dia. O que não se planta, não se colhe. Essa idéia está intimamente ligada à filosofia de um pensador grego que viveu no mundo romano, Epicteto. Nos séculos 1 e 2 da nossa era, esse ex-escravo ensinou:


“A felicidade e a liberdade começam com a clara compreensão de um princípio: algumas coisas estão sob o nosso controle, e outras não. Só depois de aceitar essa regra fundamental e aprendermos a distinguir entre o que podemos e o que não podemos controlar é que a tranqüilidade interior e a eficácia exterior tornam-se possíveis. Sob o nosso controle estão nossas opiniões, aspirações e a decisão sobre as coisas que nos causam repulsa ou nos desagradam. Essas áreas são da nossa conta porque estão sujeitas à nossa influência direta. Temos sempre a possibilidade de escolha quando se trata do conteúdo e da natureza da nossa vida interior. Fora de nosso controle, entretanto, estão coisas como do tipo de corpo que temos, se nascemos ricos ou se tiramos a sorte grande e enriquecemos de repente ou a maneira como somos vistos pelos outros. Devemos lembrar que essas coisas são externas e não dependem de nós. Tentar controlar ou mudar o que não podemos só resulta em aflição e angústia”.


De fato, a grande fonte de infelicidade, no plano psicológico, está no hábito de gastar energias reagindo contra o que não pode ser alterado, ou manipulando de modo artificial aquilo que, naturalmente, não estaria ao nosso alcance controlar. Com isso perdemos a oportunidade de fazer aquilo que só depende de nós. Epicteto acrescenta:
“As coisas sob o nosso poder estão naturalmente à nossa disposição, livres de qualquer restrição ou impedimento. As que não estão, porém, são frágeis, sujeitas à dependência ou determinadas pelos caprichos ou ações dos outros. Lembre-se também do seguinte: se você achar que tem domínio total sobre coisas que estariam fora do seu controle (...) sua busca será distorcida e você se tornará uma pessoa frustrada, ansiosa e com tendência para criticar os outros”.


Ao definir metas pessoais, devemos também levar em conta os diversos aspectos da nossa personalidade. O ser humano é um todo complexo. Somos freqüentemente contraditórios. Haverá em nós centros emocionais capazes de promover um “boicote inconsciente” contra as novas decisões? De que modo venceremos a preguiça e o apego à rotina? Como enfrentaremos o desafio da coerência?


O avanço deve ser firme, mas evite tomar decisões tão radicais que contrariem o bom senso, ou que você não consiga manter. É melhor tomar resoluções que você possa colocar em prática desde o primeiro momento, mesmo em pequena escala. Em alguns casos, vale a pena contar a amigos e familiares sobre as decisões tomadas. Tornar a decisão conhecida aumentará nossa responsabilidade. Uma ou duas pessoas podem ser escolhidas como testemunhas e “fiscais” do projeto.


Outro recurso que está ao seu alcance é criar pequenos rituais de reforço da decisão tomada. Veja alguns instrumentos utilizados por diferentes pessoas, conforme seu temperamento e inclinação individual:

 

Meditar diariamente no processo de auto-aperfeiçoamento.
Orar com regularidade, incluindo na oração o fortalecimento da decisão tomada.
Criar, ao longo do dia, alguns momentos de silêncio e de recolhimento mental.
Manter um caderno de anotações em que são registradas as principais lições da caminhada.
Reafirmar mentalmente o seu propósito, logo ao acordar, pela manhã, e antes de adormecer, à noite.

 

A decisão de mudar a rotina exige coragem e sacrifício. Temos de abrir mão, generosamente, das coisas erradas a que nos apegávamos. Mas, desse modo, cresceremos como indivíduos e desenvolveremos nosso potencial interior.


Essa renúncia aos velhos hábitos também requer austeridade, uma prática espiritual antiga, que pode ser definida como “indiferença em relação à comodidade pessoal”. O nome sânscrito da austeridade é tapah (pronuncía-se: tapas), e é esse um dos conceitos mais importantes da tradição esotérica, porque é a sua prática que produz o fortalecimento da vontade própria, sem a qual nada poderíamos fazer de útil na vida.


Tapah não é uma atitude dura ou insensível. Essa austeridade constitui apenas um sintoma externo de que temos uma vontade madura e amorosa de autoconhecimento, e de que um fogo divino queima o que é negativo em nós, iluminando o conjunto da nossa consciência. Etimologicamente, a palavra tapah significa “aquilo que brilha como o fogo ou o Sol”. A vida ensina que uma pequena dose de austeridade nos liberta de grandes fontes de sofrimento.


Qual é o segredo, então, para cumprir com as nossas promessas? Devemos definir com clareza e reexaminar constantemente as nossas metas. Devemos trabalhar com calma e criatividade (veja a historia do “plantador de flores”, no livro “Histórias Exemplares” de minha autoria) em função delas. Devemos lembrar que a existência de obstáculos é indispensável para o aprendizado. Ao enfrentar os desafios, começamos a conhecer, gradualmente, o segredo do êxito na arte de plantar bom carma. A chave do segredo, para a filosofia oriental, está na combinação correta dos significados profundos de cinco palavras:

1) altruísmo;
2) perseverança;
3) auto-estima;
4) autoconhecimento; e
5) autocontrole.

A vida nos ensina que uma pequena dose de austeridade nos liberta de grandes fontes de sofrimento.


  • “Colha o dia”

 

Texto colaboração: Professor Carlos Rosa: (falecido em 12 de fevereiro de 2019)

 

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